O Madeiro, designação que aqui assume a fogueira do Menino Jesus, é tradição forte em terras de Penamacor.

Todos os anos, com o aproximar do Natal, por todas as freguesias do concelho, os jovens em idade de cumprir o serviço militar unem-se para cortar e transportar os troncos que alimentarão a fogueira para aquecer o Menino Jesus. O grande monte de madeira, depositado no adro da igreja, é ateado ao cair da noite do dia 24, à exceção de Penamacor, que arde de 23 para 24, e mantém-se aceso durante vários dias. Depois da ceia de Natal, a população reúne-se em redor da fogueira, num gesto ritual de fraterno encontro.

Em Penamacor, a chegada do Madeiro tem data marcada e o ato assume foros de festividade. De facto, no dia 8 de dezembro, a população acorre generosamente à rua para saudar o cortejo de tratores e reboques, em número que procura sempre bater o antecedente, onde os jovens do ano, dantes só os rapazes e agora também as raparigas, empoleirados nos troncos, atiram à rebatina os frutos do ramo de laranjeira que a praxe manda trazer, cantando acompanhados à concertina.

Mas nem sempre as coisas se processaram de forma tão pacífica. Tempos houve em que encontrar lenha para o Madeiro era tarefa bem mais complicada. Dependentes da boa vontade das casas ricas locais, cujas ofertas ficavam aquém do desejado, os jovens viam-se na necessidade de roubar lenha, bois e carros, tudo a coberto da noite, para dar prova do brio da “Malta das sortes”. Assim se passava na generalidade das freguesias, onde a população ainda mantém o hábito de sair em peso à rua na noite da consoada. O Madeiro de Penamacor ganhou fama de ser o maior do país.

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Findo o ano velho, com os fumeiros recheados de enchidos frescos, grupos de rapazes e raparigas iam de noite pelas portas e quintais a cantar as janeiras, na esperança de colherem aqui uma chouriça, além uma morcela, acolá um copo de vinho, enfim, o que fosse. Cantavam-se primeiro as quadras habituais nos lugares, e recebiam-se depois as janeiras, indo-se dali para outra casa. As ofertas eram normalmente para degustar em grupo, em dia a combinar. No concelho de Penamacor, como em muitos outros, a tradição entrou em declínio com o aproximar do fim do século XX. Já no início do novo milénio, a Câmara Municipal empenhou-se em revitalizar a tradição, incentivando as populações a reatar os antigos usos e costumes e promovendo, durante alguns anos, o Encontro Concelhio de Janeiras, com a participação de todas as freguesias.

Eis algumas quadras que se cantavam:


Ainda agora aqui cheguei
Já pus o pé na escada
Logo o meu coração disse
Aqui mora gente honrada.

Levante-se minha senhora
Desse banco de cortiça
Venha-nos dar as janeiras
Ou morcela ou chouriça.

O Entrudo é tempo de folguedos! Como muitas tradições, as suas origens podem ser apercebidas em variados rituais e épocas, e a sua evolução é fruto dos diferentes modos e condicionamentos do sentir e do viver dos povos ao longo da história. Pelos aspetos antropológicos e dimensão que assumiram, as Saturnais romanas parecem constituir os mais diretos antecedentes do nosso Carnaval. Mas podemos recuar a tempos e a civilizações anteriores, a latitudes e longitudes diversas e encontraremos os seus sinais em cultos e rituais de caráter religioso-espiritual, como os consagrados a Dionísios, na Grécia, a Isis, no Egito, ou a Nertha, a Terra Mãe dos Teutões. Celebrava-se o renascer da Natureza, a saída da noite do inverno para a luz da primavera, face aos quais processos prevaleciam alguns sentimentos igualitários que irmanavam os homens de todas as condições. Eram então permitidas algumas liberalidades comportamentais estritamente cingidas ao período dos festejos, tais como danças febris e inversão de sexos e idades. As máscaras, que inicialmente serviam para o culto dos mortos ou para afugentar espíritos, viriam ao longo das épocas a incorporar a tradição carnavalesca no mundo cristão, perdendo o seu significado mágico e simbólico em favor dos bailes, das mascaradas e chocarrices, consoante a geografia e o contexto social.

Em consequência das profundas transformações das sociedades e suas formas de organização, operadas nas últimas décadas, o Entrudo perdeu muitas daquelas características. Na linha de uma política em defesa da manutenção das tradições, a Câmara Municipal tentou, durante alguns anos, chamar os foliões para a rua, organizando desfiles carnavalescos. Mas vicissitudes várias têm criado dificuldades de mobilização, mantendo-se agora apenas o Desfile das Escolas do Agrupamento Ribeiro Sanches.

Tempo de penitência, outrora marcado pela observância severa do jejum e da abstinência com vista à purificação, a Quaresma era, e ainda é, um período de grande religiosidade participada no seio das nossas gentes, demonstrada pela pervivência de liturgias e rituais seculares, verdadeiras manifestações de fé, mas também de memória. Algumas destas manifestações assumem no concelho de Penamacor formas muito peculiares, de que são exemplo as ladainhas dos homens e das mulheres, em Aldeia de João Pires. Outrora, por todas as freguesias, em regra nas Sextas Feiras, assistia-se à Encomendação da Almas, cânticos dolentes entoados por grupos de pessoas, que se faziam ouvir na escuridão das noites das aldeias.

Ciente dos valores culturais que tais manifestações encerram, a Câmara Municipal vem envidando esforços para a sua preservação. Em parte fruto desses esforços, subsistem hoje, felizmente, em quase todas as freguesias, grupos que vão mantendo vivo esse precioso conjunto de tradições, onde se incluem as Vias Sacras e as Procissões dos Passos. A procissão do Enterro do Senhor, na vila de Penamacor, é um momento muito particular de grande demonstração de fé e religiosidade populares.

Apesar do apagamento progressivo das antigas tradições, os Santos Populares mantêm-se bem presentes na vivência das gentes do concelho. Naturalmente, já não se acendem fogueiras em cada rua, nem se montam arraiais em cada bairro, mas ainda é fácil depararmos com reuniões de vizinhos e amigos em muitas das nossas localidades pelas noites de S. João, à volta da sardinha assada e da fogueira de rosmaninhos. Em Penamacor, o S. Pedro tem honras de grande festa popular, onde não faltam os bailaricos e a famosa queima da boneca no mastro que se ergue frente à antiga Casa da Câmara, na zona histórica da vila.

Nem as mudanças dos tempos, nem a quase extinção dos castanheiros, outrora tão abundantes, quebraram a tradição do magusto. A castanha perdeu, de facto, o seu lugar na alimentação das populações, mas quando chegam os Santos ninguém dispensa um punhado delas para lançar ao lume e acompanhar com a jeropiga lá de casa. E rara é a aldeia em que a Junta de Freguesia local não providencie um magusto comunitário.